A gente encontrou ele assim: o Fá
dirigindo, uma feira de doação de animais em frente ao pet shop, eu peço para o
Fá parar o carro (só para ver, prometo!) e o Fá para porque acredita em mim
mesmo quando não acredita.
Uma imensidão de cachorros pedindo
carinho. Menos o João. Parado lá no fundo do cercadinho, ficou só olhando.
Cheguei perto e achei a coisa mais linda do mundo aquele cachorrão dourado,
cara de vira-lata, peitoral forte, sentado nas patas de trás sem se abalar.
Tinha uma pinta preta no fuço (que mais tarde daria a ele o apelido “João de
Niro”). Parecia uma estátua. Aceitou meu carinho com receio, mais pela falta de
espaço para fugir do que por vontade própria. Mas depois gostou e procurou
minha mão. Procurou, mas não implorou. Tipo, seria legal se você continuasse o
carinho, moça. Quando fomos embora, o Fá carregou
a frustração de não poder me fazer feliz e eu criei um buraco no coração onde
cabia direitinho o João, grandão daquele jeito mesmo.
Demorou mais dois meses para
convencer o Fá, mas consegui. O João veio embora com a gente babando de nervoso
no banco de trás do carro, travando as quatro patas no estofado e ainda assim
escorregando nas curvas. O corpãozão magrelo caía no meu colo e ele me olhava
como se dissesse, desculpa aí, mas está complicado aqui, moça. Ia ficar mais
fácil com o tempo.
Ninguém sabia muito bem a história
do João e por que ele era tão medroso. Só sabiam que ele passou um fim de
semana inteiro preso a uma corrente, em frente ao um pet shop fechado, debaixo
de sol, sem água e sem comida. Depois fugiu e caiu em um córrego. E agora estava
no nosso apartamento, deitado na sua nova caminha xadrez azul. De costas para o
mundo e tão apertado contra a quina da parede que achei que ele ia acabar
dobrado em dois.
Demorou, mas o João foi mudando.
Foi aceitando nosso carinho, fazendo festa quando a gente chegava em casa,
aprendendo a latir, a brincar e a fazer coisas que cachorros normais fazem, tipo
pedir um pedaço do seu pão. Ou da sua carambola—o João é doido por carambola.
Mas muita coisa ainda é difícil
para o João. Barulho, qualquer barulho. Homens. Vento. Motos. Homens.
Caminhões. Lugares apertados. Homens. Outro dia a gente estava passeando na rua
quando um homem abriu um portão de correr bem do nosso lado. O João se jogou no
chão, as quatro patas abertas em quase-espacate, como se estivesse no meio de
um tiroteio. O cara riu e eu o odiei por alguns segundos. Também odiei quando
riram do João desviando dos pingos de chuva, fugindo da sacola plástica que
voou, escapando da planta que balançou com o vento, se encolhendo por causa do meu
guarda-chuva ou quase me derrubando para entrar debaixo das minhas pernas.
Às vezes eu acho que o João não tem
jeito. Que alguma coisa dentro da cabecinha dele quebrou de vez e que ele não
tem mais motivos para confiar em nada ou ninguém. Fico pensando, o que será que
aconteceu com o João. Foi na rua? Foi na casa de alguém? Pelo que será que o
João passou?
Mas daí eu me sento no chão e ele
encaixa o corpãozão entre as minhas pernas, oferecendo as costas para eu abraçar.
Ou o Fá esfrega a barriga dele bem forte, daquele jeito que só ele sabe fazer,
e o João se contorce todo. Ou ele rasga
um bichinho novo e passa dez minutos brincando alucinado com a espuma. Ou ele
descobre o fenômeno das escadas e se diverte subindo e descendo os degraus várias
vezes. Ou ele faz amizade com outro cachorro e os dois correm no parque, na
lama, na grama. Ou eu deixo ele dormir no nosso quarto e ele acorda
chacoalhando as orelhas no meio da noite, surpreso em ver que a gente ainda
está lá. Daí eu penso: isso é felicidade sim. Nem tudo é tão terrível na vida
do João.
Olhar para a vida do João me faz
pensar na minha própria vida. Porque deve ser difícil ser o João, e ainda assim
ele vem me trazer o bichinho quando eu peço. Ainda assim ele busca a bolinha
quando eu arremesso. Nunca achei que minha vida fosse difícil, longe de ser,
mas de vez em quando me dá preguiça de buscar a bolinha. De vez em quando eu
mando à merda quem me pede para pegar o bichinho. Eu mordo, ou quase.
Pena que o João não fala, queria
saber o que ele pensa. Eu, que falo e penso, faço os dois em demasia. Faço pelo João. Faço pelo Fá. Faço por mim.
Faço pela minha família. Faço pelos meus amigos. E de vez em quando, sobra um
monte de coisas que só fazem sentido no papel. Se é que fazem.
Vamos descobrir logo.
4 comentários:
Pequena, porém amada :)
como eu adoro ler tudo que vocês escreve....tem uma inocência, pureza e amor que transbordam....
melhor ainda é entender tudo que as suas entrelinhas tem a dizer.
Te amo e sou sua fã, pra sempre!
Adorei Ká!
Como sempre, oq vc escreve me faz sentir cada emoção, imaginar perfeitamente cada cena, e ter certeza que você continua aquela menina com uma sensibilidade e um jeito de ser expressar ÚNICO.
Te adoro amiga e vou acompanhar este blog do João; afinal alem de sua amiga sou cachorreira e amei a estória.
bjs
Eba! Love u, irmã :)
Obrigada, fakinha do heart :) Acompanhe sim, a vida e o dia a dia do blog, rs (piadas internas sempre têm mais graça).
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