Quando chegou o resultado do exame da minha mãe, o João estava
deitado no tapetinho cinza dele. Antes do João, não existia o tapete ali no
canto do sofá. Nem existiam os pelos que se acumulavam nele, formando bolas
douradas que saem rolando pela sala.
Há um ano, quando ainda não existia o João, também não
existia chegar um exame da minha mãe e
eu ficar estatelada na sala com o envelope branco na mão, sem saber se ligava a
TV, se comia uma banana, se saía para correr, se cortava a unha do pé que
estava esperando faz tempo ou se finalmente descolava o adesivo e abria o
envelope.
Quando não existia o João, claro que não existia cachorro
algum sentado na sala, observando meus movimentos, reagindo às minhas
expressões, tentando me adivinhar. Dizem que os cachorros sentem as coisas. Mas
nesse caso nem vou tentar escrever que ele sentiu que eu estava com medo e que,
companheiro como é, veio se sentar pertinho. Seria bonito, mas na verdade ele
cheirou o envelope pensando que era comida (ele sempre pensa que é comida). E
abanou o rabo. E deu aquele sorriso de cachorro para mim. Lindo o João, sem a menor
ideia do que é uma tomografia.
Como é que eu posso dizer isso? Logo do João. Se alguém
conhece medo, é ele. Quando eu passeio com o João na rua e um portão abre ou
alguém pisa mais forte na calçada ou um caminhão faz o asfalto tremer, ele olha
para mim. E eu sorrio para passar confiança, para lembrar que eu estou ali.
Agora lá estava o João, sem querer, fazendo o mesmo por mim. E eu aceitando a
sabedoria canina dele.
Abri. Estava escrito bem bonitinho que está tudo bem.
Ganhou um beijo e dois biscoitos.
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