quarta-feira, 27 de maio de 2015

As Muitas Dúvidas do João

Mãe, meu irmão vai comer minha ração?
Irmão ou irmã, né, João.
Mas vai comer minha ração?
Não, filhote.
Se for menino, vocês também vão arrancar as bolinhas do saco dele?
Não, meu amor.
Isso é crueldade!
Não vamos, prometo.
E meu biscoito?
Que tem?
Ele vai comer meu biscoito?
Claro que não.
Ele vai ter rabo?
Espero que não, filho.
Por que, você tem vergonha do meu rabo?
Adoro seu rabo, João.
E as orelhas, vão ser que nem as minhas?
Um pouco diferentes.
E ele vai ter pelos?
Não tanto que nem você.
Está me chamando de anormal, mãe?
Não, filhote, você é um cachorro.
Você e seus rótulos.
Bocó.
Ele também vai babar, mãe?
Ah, isso vai.
Sabia que ele não ia ser perfeito.
Hum.
Você vai obrigar ele a tomar banho toda semana também?
Um pouco mais que isso.
Coitado, mãe!
É a vida.
Ô mãe, não sai com ele na rua que é um perigo.
É, João?
Caminhões, motos, vento, homens...
Sei como é.
Você vai soltar ele da coleira de vez em quando?
Ele não vai usar coleira, filho.
Nunca?
Nunca.
Aposto que vai fazer xixi pela casa toda.
Não, ele vai usar fralda.
Por que eu não posso usar fralda?
Sério?
Tá. Mãe, ele vai pegar meus bichinhos?
Acho que você que vai pegar os dele.
Por que, ele vai ter mais bichinhos que eu?
Sei lá, João!
Será que ele também vai gostar de carambola?
Boa pergunta.
E de tomate?
Vamos ver.
Você vai deixar ele dormir no seu quarto?
Ele vai ter o quarto dele.
Um quarto inteiro só para ele?
Isso.
Estou sentindo um favoritismo.
Impressão sua.
Ele também vai para a casa da vovó?
Vai sim.
Mas a vovó ainda vai gostar mais de mim?
Hum...
Pode falar, eu aguento.
A vovó vai amar vocês de jeitos diferentes.
Isso é conversa.
Mas seu irmão também vai amar você, sabia?
É?
[rabo abana]
Vai brincar com você, te levar para passear...
É?
Você vai me ajudar a tomar conta dele e tudo.
Três biscoitos por dia e não se fala mais nisso.
Ok.
Mãe?
Oi, João.
Tem outra coisa.
Diga, filho.
Sabe quando o papai chega à noite? Ele ainda vai brincar comigo?
Claro que vai, filhote.
Mas assim, vai correr pela casa, brincar de pegar, pular na cama e etc?
Você anda pulando na cama com seu pai???
NÃO!
Vou matar seu pai.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

João knows

Quando chegou o resultado do exame da minha mãe, o João estava deitado no tapetinho cinza dele. Antes do João, não existia o tapete ali no canto do sofá. Nem existiam os pelos que se acumulavam nele, formando bolas douradas que saem rolando pela sala.

Há um ano, quando ainda não existia o João, também não existia chegar um exame da minha mãe  e eu ficar estatelada na sala com o envelope branco na mão, sem saber se ligava a TV, se comia uma banana, se saía para correr, se cortava a unha do pé que estava esperando faz tempo ou se finalmente descolava o adesivo e abria o envelope.

Quando não existia o João, claro que não existia cachorro algum sentado na sala, observando meus movimentos, reagindo às minhas expressões, tentando me adivinhar. Dizem que os cachorros sentem as coisas. Mas nesse caso nem vou tentar escrever que ele sentiu que eu estava com medo e que, companheiro como é, veio se sentar pertinho. Seria bonito, mas na verdade ele cheirou o envelope pensando que era comida (ele sempre pensa que é comida). E abanou o rabo. E deu aquele sorriso de cachorro para mim. Lindo o João, sem a menor ideia do que é uma tomografia.

Como é que eu posso dizer isso? Logo do João. Se alguém conhece medo, é ele. Quando eu passeio com o João na rua e um portão abre ou alguém pisa mais forte na calçada ou um caminhão faz o asfalto tremer, ele olha para mim. E eu sorrio para passar confiança, para lembrar que eu estou ali. Agora lá estava o João, sem querer, fazendo o mesmo por mim. E eu aceitando a sabedoria canina dele.

Abri. Estava escrito bem bonitinho que está tudo bem.

Ganhou um beijo e dois biscoitos.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Assim nasce um blog

A gente encontrou ele assim: o Fá dirigindo, uma feira de doação de animais em frente ao pet shop, eu peço para o Fá parar o carro (só para ver, prometo!) e o Fá para porque acredita em mim mesmo quando não acredita.

Uma imensidão de cachorros pedindo carinho. Menos o João. Parado lá no fundo do cercadinho, ficou só olhando. Cheguei perto e achei a coisa mais linda do mundo aquele cachorrão dourado, cara de vira-lata, peitoral forte, sentado nas patas de trás sem se abalar. Tinha uma pinta preta no fuço (que mais tarde daria a ele o apelido “João de Niro”). Parecia uma estátua. Aceitou meu carinho com receio, mais pela falta de espaço para fugir do que por vontade própria. Mas depois gostou e procurou minha mão. Procurou, mas não implorou. Tipo, seria legal se você continuasse o carinho, moça. Quando fomos embora, o Fá carregou a frustração de não poder me fazer feliz e eu criei um buraco no coração onde cabia direitinho o João, grandão daquele jeito mesmo.

Demorou mais dois meses para convencer o Fá, mas consegui. O João veio embora com a gente babando de nervoso no banco de trás do carro, travando as quatro patas no estofado e ainda assim escorregando nas curvas. O corpãozão magrelo caía no meu colo e ele me olhava como se dissesse, desculpa aí, mas está complicado aqui, moça. Ia ficar mais fácil com o tempo.

Ninguém sabia muito bem a história do João e por que ele era tão medroso. Só sabiam que ele passou um fim de semana inteiro preso a uma corrente, em frente ao um pet shop fechado, debaixo de sol, sem água e sem comida. Depois fugiu e caiu em um córrego. E agora estava no nosso apartamento, deitado na sua nova caminha xadrez azul. De costas para o mundo e tão apertado contra a quina da parede que achei que ele ia acabar dobrado em dois.

Demorou, mas o João foi mudando. Foi aceitando nosso carinho, fazendo festa quando a gente chegava em casa, aprendendo a latir, a brincar e a fazer coisas que cachorros normais fazem, tipo pedir um pedaço do seu pão. Ou da sua carambola—o João é doido por carambola.

Mas muita coisa ainda é difícil para o João. Barulho, qualquer barulho. Homens. Vento. Motos. Homens. Caminhões. Lugares apertados. Homens. Outro dia a gente estava passeando na rua quando um homem abriu um portão de correr bem do nosso lado. O João se jogou no chão, as quatro patas abertas em quase-espacate, como se estivesse no meio de um tiroteio. O cara riu e eu o odiei por alguns segundos. Também odiei quando riram do João desviando dos pingos de chuva, fugindo da sacola plástica que voou, escapando da planta que balançou com o vento, se encolhendo por causa do meu guarda-chuva ou quase me derrubando para entrar debaixo das minhas pernas.

Às vezes eu acho que o João não tem jeito. Que alguma coisa dentro da cabecinha dele quebrou de vez e que ele não tem mais motivos para confiar em nada ou ninguém. Fico pensando, o que será que aconteceu com o João. Foi na rua? Foi na casa de alguém? Pelo que será que o João passou?

Mas daí eu me sento no chão e ele encaixa o corpãozão entre as minhas pernas, oferecendo as costas para eu abraçar. Ou o Fá esfrega a barriga dele bem forte, daquele jeito que só ele sabe fazer, e o João  se contorce todo. Ou ele rasga um bichinho novo e passa dez minutos brincando alucinado com a espuma. Ou ele descobre o fenômeno das escadas e se diverte subindo e descendo os degraus várias vezes. Ou ele faz amizade com outro cachorro e os dois correm no parque, na lama, na grama. Ou eu deixo ele dormir no nosso quarto e ele acorda chacoalhando as orelhas no meio da noite, surpreso em ver que a gente ainda está lá. Daí eu penso: isso é felicidade sim. Nem tudo é tão terrível na vida do João.

Olhar para a vida do João me faz pensar na minha própria vida. Porque deve ser difícil ser o João, e ainda assim ele vem me trazer o bichinho quando eu peço. Ainda assim ele busca a bolinha quando eu arremesso. Nunca achei que minha vida fosse difícil, longe de ser, mas de vez em quando me dá preguiça de buscar a bolinha. De vez em quando eu mando à merda quem me pede para pegar o bichinho. Eu mordo, ou quase.

Pena que o João não fala, queria saber o que ele pensa. Eu, que falo e penso, faço os dois em demasia.  Faço pelo João. Faço pelo Fá. Faço por mim. Faço pela minha família. Faço pelos meus amigos. E de vez em quando, sobra um monte de coisas que só fazem sentido no papel. Se é que fazem.


Vamos descobrir logo.