quarta-feira, 6 de maio de 2015

Assim nasce um blog

A gente encontrou ele assim: o Fá dirigindo, uma feira de doação de animais em frente ao pet shop, eu peço para o Fá parar o carro (só para ver, prometo!) e o Fá para porque acredita em mim mesmo quando não acredita.

Uma imensidão de cachorros pedindo carinho. Menos o João. Parado lá no fundo do cercadinho, ficou só olhando. Cheguei perto e achei a coisa mais linda do mundo aquele cachorrão dourado, cara de vira-lata, peitoral forte, sentado nas patas de trás sem se abalar. Tinha uma pinta preta no fuço (que mais tarde daria a ele o apelido “João de Niro”). Parecia uma estátua. Aceitou meu carinho com receio, mais pela falta de espaço para fugir do que por vontade própria. Mas depois gostou e procurou minha mão. Procurou, mas não implorou. Tipo, seria legal se você continuasse o carinho, moça. Quando fomos embora, o Fá carregou a frustração de não poder me fazer feliz e eu criei um buraco no coração onde cabia direitinho o João, grandão daquele jeito mesmo.

Demorou mais dois meses para convencer o Fá, mas consegui. O João veio embora com a gente babando de nervoso no banco de trás do carro, travando as quatro patas no estofado e ainda assim escorregando nas curvas. O corpãozão magrelo caía no meu colo e ele me olhava como se dissesse, desculpa aí, mas está complicado aqui, moça. Ia ficar mais fácil com o tempo.

Ninguém sabia muito bem a história do João e por que ele era tão medroso. Só sabiam que ele passou um fim de semana inteiro preso a uma corrente, em frente ao um pet shop fechado, debaixo de sol, sem água e sem comida. Depois fugiu e caiu em um córrego. E agora estava no nosso apartamento, deitado na sua nova caminha xadrez azul. De costas para o mundo e tão apertado contra a quina da parede que achei que ele ia acabar dobrado em dois.

Demorou, mas o João foi mudando. Foi aceitando nosso carinho, fazendo festa quando a gente chegava em casa, aprendendo a latir, a brincar e a fazer coisas que cachorros normais fazem, tipo pedir um pedaço do seu pão. Ou da sua carambola—o João é doido por carambola.

Mas muita coisa ainda é difícil para o João. Barulho, qualquer barulho. Homens. Vento. Motos. Homens. Caminhões. Lugares apertados. Homens. Outro dia a gente estava passeando na rua quando um homem abriu um portão de correr bem do nosso lado. O João se jogou no chão, as quatro patas abertas em quase-espacate, como se estivesse no meio de um tiroteio. O cara riu e eu o odiei por alguns segundos. Também odiei quando riram do João desviando dos pingos de chuva, fugindo da sacola plástica que voou, escapando da planta que balançou com o vento, se encolhendo por causa do meu guarda-chuva ou quase me derrubando para entrar debaixo das minhas pernas.

Às vezes eu acho que o João não tem jeito. Que alguma coisa dentro da cabecinha dele quebrou de vez e que ele não tem mais motivos para confiar em nada ou ninguém. Fico pensando, o que será que aconteceu com o João. Foi na rua? Foi na casa de alguém? Pelo que será que o João passou?

Mas daí eu me sento no chão e ele encaixa o corpãozão entre as minhas pernas, oferecendo as costas para eu abraçar. Ou o Fá esfrega a barriga dele bem forte, daquele jeito que só ele sabe fazer, e o João  se contorce todo. Ou ele rasga um bichinho novo e passa dez minutos brincando alucinado com a espuma. Ou ele descobre o fenômeno das escadas e se diverte subindo e descendo os degraus várias vezes. Ou ele faz amizade com outro cachorro e os dois correm no parque, na lama, na grama. Ou eu deixo ele dormir no nosso quarto e ele acorda chacoalhando as orelhas no meio da noite, surpreso em ver que a gente ainda está lá. Daí eu penso: isso é felicidade sim. Nem tudo é tão terrível na vida do João.

Olhar para a vida do João me faz pensar na minha própria vida. Porque deve ser difícil ser o João, e ainda assim ele vem me trazer o bichinho quando eu peço. Ainda assim ele busca a bolinha quando eu arremesso. Nunca achei que minha vida fosse difícil, longe de ser, mas de vez em quando me dá preguiça de buscar a bolinha. De vez em quando eu mando à merda quem me pede para pegar o bichinho. Eu mordo, ou quase.

Pena que o João não fala, queria saber o que ele pensa. Eu, que falo e penso, faço os dois em demasia.  Faço pelo João. Faço pelo Fá. Faço por mim. Faço pela minha família. Faço pelos meus amigos. E de vez em quando, sobra um monte de coisas que só fazem sentido no papel. Se é que fazem.


Vamos descobrir logo.

4 comentários:

Karla Lemes disse...

Pequena, porém amada :)
como eu adoro ler tudo que vocês escreve....tem uma inocência, pureza e amor que transbordam....
melhor ainda é entender tudo que as suas entrelinhas tem a dizer.
Te amo e sou sua fã, pra sempre!

Unknown disse...

Adorei Ká!
Como sempre, oq vc escreve me faz sentir cada emoção, imaginar perfeitamente cada cena, e ter certeza que você continua aquela menina com uma sensibilidade e um jeito de ser expressar ÚNICO.
Te adoro amiga e vou acompanhar este blog do João; afinal alem de sua amiga sou cachorreira e amei a estória.
bjs

klborges disse...

Eba! Love u, irmã :)

klborges disse...

Obrigada, fakinha do heart :) Acompanhe sim, a vida e o dia a dia do blog, rs (piadas internas sempre têm mais graça).